segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Fria e Gelada.



Não sei nada sobre ti. Apenas que todos os dias de manhã enquanto vou a cantarolar com a minha filha no carro, a tua presença recorda-me que há gente como tu e gente como eu.

Indiferentes ao que nos rodeia. Aqui somos iguais.

Chove a rodos, faz frio e tu lá estás, com mantas encharcadas em cima de ti, e um plástico transparente falsamente protector. Aliás tudo na tua vida deverá ser falsamente protector.

Há meses que ali passo, há meses que ali estás. Hoje decidi fazer qualquer coisa, como se fossem necessários meses para que eu me insurgisse... talvez tenha achado durante este período todo que alguém iria tratar de te recolher da rua gelada. Há sempre dentro de nós alguém que vai fazer por nós. Substitutos da nossa consciência que anulam a nossa perspectiva da realidade.

Mas enfim, ainda assim, liguei para a revista Cais, por algum motivo achei que podia ser por ali... Simpáticos, prontamente me orientaram para a Emergência Social (144). Obrigado, digo eu e ligo. Igualmente simpáticos e depois de algumas perguntas para as quais eu não tive resposta, com alguma insistência minha lá me transferem para “o sector”. A senhora explica-me que é muito importante a pessoa querer ajuda... Eu silencio a minha surpresa, ouço-a simplesmente. Se ele quer ajuda? Se o vamos agarrar pela mão e transportá-lo para um ambiente completamente desconhecido e até talvez agressor para os seus hábitos? Penso que nao. Ele não vai querer ajuda. Se conheço alguém na rua que quer ajuda? Talvez, mas raras são essas pessoas... Se conheço alguém sem ser na rua que precisa e quer ajuda? Também não... A vergonha é autoritária na solidão da doença e/ou da necessidade. Mas enfim, a senhora ficou com o meu número e disse-me que iam enviar uma equipa e falar com a esquadra mais perto. Aguardo.

Mas por algum motivo hoje ( e apenas hoje! ) aguardar não serve. Decido ir eu mesma à esquadra. Martim Moniz. Chego meio confusa pois o espaço é tão antigo que não se vê... apenas uma porta de madeira com um alçapão à entrada, que duvidosamente transmitia um lugar seguro ao qual se possa recorrer...

Lá fui. Quatro jovens agentes estavam sentados com uma pequena televisão a assistir à programação de uma canal português. Espantam-se com a minha entrada e observam-me com um olhar de total inadequação àquele espaço. Explico-me em tom de ajuda e de espanto. Explico que há muitos sem-abrigos nestas cidades, mas que estes ainda têm o instinto de se recolher da chuva, do frio. Este não. Apenas fica ali deitado, sem qualquer instinto de se levantar para urinar, ou proteger-se. Tem fezes à volta dele e dele mesmo. E todos os dias, ali está aos olhos de todos.

Os jovens agentes sorriem enquanto me explico. Nada é novo do que lhes conto. Apenas que conduzem à camara ou à emergencia social... E claro, recordam-me que só se ele quiser é que o podem tirar dali, que a PSP não tem qualquer obrigação ou juridisção para tirar as pessoas da rua. Eu questiono-me, ele terá querer? Estará em condições de poder escolher? Haverá alternativa?
Derrotada venho-me embora.

Páro ao lado dele, decido sair do carro e perguntar aos que ali estavam o que sabiam. Pedem-me ajuda, explicam que são eles que o vão mudando de lugar, e de posição. Querem acreditar que consigo recolhê-lo dali. Todos afinal queremos, mas parece que ele não. E isso é que conta. Bizarro mundo este.

No caminho lembro-me que há uns anos fiz um trabalho de Voluntária da comunidade Vida e Paz para as Ceias de Natal dos Sem Abrigo. Decido ligar para lá. Sou bem recebida, encaminhada e garantem-me que alguma coisa vão fazer. Boas notícias, talvez. Mas no momento seguinte explicam-me: vamos ver se ele quer ajuda! E mais uma vez a minha expectativa fica por terra... Já que o céu hoje estava carregado. Fiquei de voltar a ligar amanhã. Sem promessas.

Final do dia, passo por lá novamente para ver se algo mudou. Nada, tudo igual. Chove e tu estás lá, no mesmo sítio, no mesmo charco com a cara tapada. E o plástico, protector.

Mais uma noite chuvosa e gelada. Tal qual eu me sinto.

3 comentários:

  1. Fiquei estarrecida, gelada também. Fiquei um caco, de tão triste. Não consigo parar de chorar... será que, se ele disser que quer, terá mesmo?

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  2. Hoje (igualzinho ao que tem sido a última semana) que tenho a alma "maltratada", este post vem mesmo a jeito...

    Será que o plástico também serve de capa protectora ao "desconforto afectivo" (...)???

    Que raio de vidas há por esse mundo fora!
    Quem alguma vez pensou que o mundo era justo, enganou-se redondamente !!!

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  3. E hoje de manhã voltei a lá passar e tudo se mantém, indiferentemente intacto. Cara tapada, mas com mais mantas por cima, encharcado.

    Que mundo tão desigual.

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