terça-feira, 17 de novembro de 2009

Vida cheia




Confesso que tive uma adolescência intensa. Cheia de tudo o que é possível viver-se nessa fase. Comecei cedo, com o privilégio de ser a cassula de 3 irmãos pelo que as portas estavam já abertas para a descoberta... Bastava-me observar e decidir o que escolher. Por vezes copiar apenas ou noutras reinventar. Inventar mesmo.

Não sou de uma família abastada, mas talvez de uma família exigente. Todos teríamos que vencer em qualquer lado. Nem que fosse na expectativa de sermos apenas o que somos, mas sempre com a atitude de Ser. Um avô paterno curioso e “mulherengo” determinou parte do rumo de todos nós... e somos de facto muitos, graças a ele. Este tema daria um grande “ensaio sobre a família nas futuras famílias” mas não é hoje o que me chama aqui.

A adolescência foi para mim, mais que infância o que determinou a mulher de hoje, e isso por vezes não se vê. São raras as vezes que falamos deste periodo na idade adulta, talvez porque nos traga tanta memória que a infância é mais fácil de integrar no adulto. Digo isto porque acho que o adulto escolhe sempre a parte que domina menos de si, para se auto-avaliar ou mesmo revelar. Sou assim, porque alguma coisa se passou algures e onde não me lembro bem. É claro que estou a referir-me a trabalho terapeutico.

Como adulta que sou hoje, e para a prática que esta fase exige, é para mim muito claro que tenho as minhas origens muito direitinhas na minha adolescência. Quando observo a minha filha, e outras filhas que tenho, mesmo que não sejam directamente minhas, arrepio-me quanto ao meu futuro como mãe. E estranhamente fui criada numa liberdade quase irreal para a época e descontextualizada quanto ao meu grupo de amigas. E aqui está a graça desta história. Gosto do que sou e devo-o a quem me permitiu Ser. Ou exigiu, como queiram.

Nos últimos meses, as maravilhas das redes socias virtuais permitiram-me reencontrar grande parte de mim. Os meus amigos de adolescência, alguns tão importantes ou mais que a minha própria família. Outros, controversos mas que hoje na idade adulta essa ligação nos une com o respeito do que fomos e logo somos hoje também.

Ficaria aqui a escrever mais 3 horas sobre este tema... mas apenas deixo o que sinto, nem que seja para me recordarem daqui a 10 anos. Deixem a porta aberta da curiosidade aos vossos filhos(as) adolescentes . Mesmo que isso signifique responsabilizá-los por essa irreverente abertura, dos pais. ;)

Para ti meu grande amigo de Guatemala que hoje me fizeste sorrir.
Para ti, parte de mim, que hoje me fizeste choramingar de emoção.

2 comentários:

  1. "Aquele" momento fez-me viajar por ali, p'los meus 14 anos. De repente, toda essa fase me passou em flashes p'la frente. Como se precisasse de novamente pensar assim, sentir como então, lembrar-me dos interesses e gostos. Este tembém é um retorno da maternidade: leva-nos atrás, às memórias e lembranças. É muito compensador e aumenta-nos a responsabilidade que, com agrado assumimos, de proporcionar-lhes mais e melhor do que fomos e tivémos. Vamos ver se dá certo, se desta forma, é mesmo mais fácil e proveitoso ter 14 anos hoje.

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  2. Vida vazia...

    Morrer é muito mais do que “só não ser visto” !

    Morrer é deixar um rasto de tristeza profunda em alguém, para todo o sempre. É sentir uma saudade permanente do cheiro, da voz, dos abraços, do riso, do choro, de tudo o que fisicamente nos faz falta…é não perceber o sentido da ausência.

    Viver de memória é apenas uma forma, talvez a menos agressiva, de viver com a saudade de quem sabemos nunca mais volta. Esse acto de permanência, de saber que “nunca mais”, é aquele que mais fere….é este o esforço sobre-humano do luto!

    Hoje estou zangada...

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