quarta-feira, 30 de setembro de 2009

À margem de nós mesmos



"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já não têm a forma do nosso corpo e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo de travessia e se não ousarmos fazê-la teremos ficado para sempre à margem de nós mesmos." Fernando Pessoa

Nestas últimas semanas como que numa coincidência contextual, dou comigo a fazer parte de uma série de amigos que se estão a separar. O meu papel é e sempre será o mesmo. Não acho que se deva tentar, quando a nossa emoção já nos levou para outra realidade que não aquela que vivemos com determinada pessoa.

Acho claramente que a Monogamia (sim, a monogamia não o casamento) por uma vida inteira é um mito. Acho que para se estar junto só pode ser porque se quer continuar. Todas as morais à volta deste tema são, na minha perspectiva, véus de seda de algumas mentiras sociais que no fundo só atrasam a nossa evolução. Quantas de nós conhecemos que estão simplesmente por lá... cumprindo os rituais do casamento, sem qualquer noção da sua própria identidade interior? As nossas avós, as nossas mães e mulheres à nossa volta cumpriram em tempos um papel, um objectivo que na falta de tantos outros, apenas restava aquele que era simplesmente estar ali.

Tenho claramente telhados de vidro. Já me separei de um amor em tempos verdadeiro. E foi, mas também evoluiu à minha margem. Passados estes anos, descubro que hoje sou mais eu (ainda em grande investigação, por vezes até aparentemente insaciável). Comigo hoje outro amor, mais perto de mim. É difícil manter a expectativa da continuidade. É difícil não viver outros mundos. Mas é muito mais fácil e simples sentir que queremos esse amor aqui, agora, e ao nosso lado. O resto não somos nós que mandamos...

O importante é que nas dificuldades tão naturais deste percurso nunca nos sintamos à margem de nós mesmos.

Para vocês mulheres da minha vida que passam hoje por este percurso, parabéns por não se terem permitido ficar à margem da vossa verdade.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Sabes usar o teu coração?



"Era uma vez uma menina que sabia usar o coração. Sim, sabia que onde punha o coração nascia uma flor, nascia um som mágico, nascia uma borboleta, nascia um sorriso, nascia uma estrela-do-mar, o olá de um golfinho e um abraço de um amigo."

No domingo passado fomos com a nossa pequenina ver esta simples e tão doce peça. Não sei se sei usar o meu coração, mas sei pelo menos dizer que consigo claramente observar a forma como me modifico quando o uso...

A minha filha ainda hoje de manhã dizia-me em segredo (tal como na peça): - usa o teu coração...

Obrigada minha pequenita por me ensinares tanto.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A consciência é o antídoto para a imbecilidade



O texto não é meu. Mas tinha de o partilhar aqui.(F. SAVATER)

“Sabes qual é a única obrigação que temos nesta vida? Pois é a de não sermos imbecis. A palavra «imbecil» é mais densa do que parece, não duvides. Vem do latim baculus, que significa «bastão»: o imbecil é o que precisa de um bastão ou bengala para andar. Que não se zanguem connosco os coxos nem os velhos, pois a bengala a que nos referimos não é a que muito legitimamente se usa para ajudar a sustentar-se e a andar um corpo enfraquecido por algum acidente ou pela idade. O imbecil pode ser tão ágil quanto se queira e dar saltos como uma gazela olímpica, não é disso que se trata. Se o imbecil coxeia não é dos pés, mas do espírito: é o seu espírito que é enfermiço e manco, embora o seu corpo possa dar cambalhotas de primeira. Há imbecis de diversos modelos, à escolha:

a) O que acredita que não quer nada, o que diz que para ele é tudo igual, o que vive num perpétuo bocejo ou numa sesta permanente, mesmo que tenha os olhos abertos e não ressone.
b) O que acredita que quer tudo, a primeira coisa que lhe aparece e o contrário do que lhe aparece: ir-se embora e ficar, dançar e estar sentado, mascar dentes de alho e dar beijinhos sublimes, tudo ao mesmo tempo.
c) O que não sabe o que quer nem se dá ao trabalho de o averiguar. Imita os quereres dos seus vizinhos ou contraria-os porque sim, tudo o que faz é ditado pela opinião maioritária daqueles que o rodeiam: é conformista sem reflexão ou revoltado sem causa.
d) O que sabe que quer e sabe o que quer e, mais ou menos, sabe porque é que o quer. Mas que pouco, com medo ou sem força. Acaba sempre por fazer, bem vistas as coisas, o que não quer, deixando o que quer para amanhã, pois talvez amanhã esteja mais bem-disposto.
e) O que quer com força e ferocidade, em estilo bárbaro, mas se enganou a si próprio acerca do que é a realidade; despista-se em grande e acaba por confundir a vida boa com aquilo que o há-de tornar pó.

Todos estes tipos de imbecilidade precisam de bengala, ou seja, precisam de se apoiar em coisas de fora, alheias, que nada têm que ver com a liberdade e reflexão pessoais.

O contrário de se ser moralmente imbecil é ter-se consciência.
Em que consiste essa consciência, que nos curará da imbecilidade moral? Fundamentalmente nos traços seguintes:

a) Saber que nem tudo vem a dar no mesmo porque queremos realmente viver e, além disso, viver bem, humanamente bem.
b) Estarmos dispostos a prestar atenção para vermos se aquilo que fazemos corresponde ou não ao que deveras queremos.
c) À base de prática, irmos desenvolvendo o bom gosto moral, de tal modo que haja certas coisas que nos repugne espontaneamente fazer (por exemplo, termos «nojo» de mentir como temos em geral nojo de mijar na terrina da sopa em que vamos comer a seguir…)
d) Renunciarmos a procurar argumentos que dissimulem o facto de sermos livres e portanto razoavelmente responsáveis pelas consequências dos nossos actos.”

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

As pessoas e a verdade



Talvez hoje seja um dia de viragem.
Há muito tempo que o cansaço nos persegue, há muito tempo que a verdade nos invade. Talvez estejamos todos a conduzir embriagados pela bebida do ócio. Os estados depressivos são isso mesmo, o reconhecimento das não verdades que nos habituámos a desenvolver para que consigamos “fazer parte”.
É um facto que quando deparamos com as inadvertências deste percurso meio maluco que é a vida, acabamos por forçosamente darmos atenção ao relevante. Ontem ouvia dizer a alguém que já esteve no limite, que só assim se tornou uma melhor pessoa, um melhor ser humano. Talvez a rapidez com que hoje atingimos os objectivos sociais em detrimento dos pessoais, nos faça sentir que não chegámos a lado nenhum. Isto de ser um (a) optimista permanente tem que se lhe diga. Talvez o pensamento positivo por si só, chegue apenas a algumas mentes. Porque será que o desvio dos pensamentos negativos e destrutivos são por vezes tão difíceis de afastar? O que fará aos nossos neurotransmissores preferir um caminho coberto de emoções como o medo, a ansiedade e tantas outras bloqueadoras de evolução? Ou não será este o alerta para que compreendamos que se é ali que estamos, então escutemos os nossos próprios sinais.
Não sei. No entanto reconheço que as pessoas “não-verdade” estão por todo o lado. Porque precisamos de continuar. Melhor cego e continuar, do que com Visão e parado. Os outros precisarão que continuemos? Será mesmo assim? Talvez.

Depressão é um lugar-comum hoje. Desencantamento desencorajador. Se quando acabaram de ler este texto se sentirem deprimidos talvez seja porque eu estou deprimida. E aceito viver com isso, pois é tempo de começar a acabar com as minhas não verdades…
E escolho esse caminho, é para muitos o mais fácil pois soa a desistir. E os sobreviventes hoje são uma mais-valia. Para outros é o caminho mais desajustado face às expectativas que estavam guardadas.

Para mim é apenas a minha verdade.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Better together



Vivemos na época em que a sociedade considerada evoluída, estimula um caminho interior de grande competência individual. Antigamente, as pessoas, os amigos, as famílias ajudavam-se. E… mal ou bem, vivia-se com alguma partilha, debaixo do mesmo tecto e às vezes até comendo do mesmo prato ou panela.
Claramente o sucesso de uns era resultado de um apoio de outros. Porque os negócios eram transferidos de geração para geração, porque o Patrão ajudava o filho(a) da empregada que lá estava em casa ou mesmo somente porque era jovem e era preciso “dar um empurrão”. Ou porque simplesmente era assim.

Hoje em dia, não só não precisamos dos “velhos” como caso precisemos (porque a vida é muito astuta) é dever deles ajudarem. Com empréstimos, com apoio aos netos, com refeições ou outra coisa qualquer… Isto só no caso de estes serem independentes e autónomos pois caso contrário, já dão trabalho a mais. Não queremos.
Mas isto surgiu hoje porque é com alguma tristeza que assisto a muita gente à minha volta a necessitar de ajuda (inclusive na minha própria família) e as pessoas que o podem fazer ficam como que estagnados à espera que haja alguém que ajude. Acho mesmo que pensam que há-de surgir de algum lado… deles é que não. Mas a constante cerimónia para os que não são da família, lá está. É mais fácil mostrarem-se disponíveis para os de fora do que para dentro. Corrijo: não ajudam de facto, mostram-se disponíveis.

Os conceitos são totalmente diferentes,” estar disponível” e “ajudar de facto”.

Todos se interessam mas toca a fugir, antes que sobre para mim. É difícil ajudar. É difícil escutar a tristeza e os queixumes dos outros…estamos sem paciência, sem vontade de fazer parte dessa emoção.
Resultado prático: fazemos de conta. Voltamos às reminiscências da infância e brincamos com a realidade como se fosse uma fantasia. Mitómanos por excelência. E por isso não precisamos de ninguém, fazemos tudo sozinhos. Vivemos sozinhos (pois viver em conjunto dá muito trabalho), criamos filhos sozinhos (porque as nossas mães assim fizeram e nós, mulheres, mesmo a trabalhar também deveremos saber fazê-lo) e por fim auto sustentamo-nos emocionalmente porque não podemos entrar em borderline e entrar em depressão.

Não quero parecer cansativa, mas à minha volta muita gente tem receio de pedir ajuda. Ou será vergonha? Há sempre um preconceito na ajuda nos dias de hoje, a menos que seja um voluntariado que cumpra com as exigências da responsabilidade social…
Pois é. Eu cá cada vez mais preciso de ter ajuda à minha volta. Cada vez mais preciso de confiar nas pessoas que me envolvem, cada vez mais me traz bem-estar com elas. Cada vez mais sinto que sozinha sou quase nada. Gosto e PRECISO de receber. E cada vez mais NÃO QUERO gente fantasiada ao meu redor. É fantástico saber o que queremos.
Para ti. E vou claramente ajudar-te.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Equilibras-me



Neste tempo de indecisão, equilibras-me.
Quando me perco no labirinto em que me encontro, equilibras-me.
Quando me deixo levar pela corrente da normalidade, equilibras-me.
Quando me permito encostar a cabeça no teu ombro, equilibras-me.

Viver ao teu lado é equilíbrio.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Me and not you....



Setembro com o regresso é mesmo assim... cinzento e cansativo. Os que já cá estavam em produção desejam imenso mostrar como a vida continua, como Agosto não parou... lol.

A mim dá-me para rir. Tudo parou, ninguém quer saber e pior Setembro traz a dinâmica do "devagar"; "ainda agora cheguei".

Quando não se ama o que se faz é isto que acontece. You are boring. You, and you, and you. On end result: me.

Falta de amor pelo que nos rodeia e acção premeditada para concretização de objectivos, resulta em seres humanos decandentes. Presos nessa rede de influência e interesse. Interesse esse, somente em parecer.

I feel boring. And you?