terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Era uma vez...




uma história que te li. Talvez tenha sonhado com ela, não me lembro bem. Tinhas 5 anos e uma família grande. Manos, manas, pai, mãe e um animal doméstico. A história era num sótão de lamparina de petróleo com tons avermelhados que dava cor às paredes de madeira. Estávamos todos. Não tínhamos televisão, apenas livros. Havia também botijas de água quente guardada em ferro forjado. E muitos chocolates... e umas escadas.

Era um sótão. Preferido pelas bonecas que lá habitavam e pela Misha Boneca, essa gata que viveu a história. Imaginas que lá tudo fazia sentido, tudo tinha um lugar e ainda que nada estivesse no sítio certo. Mas a protecção estava. Nunca saía do lugar.

Havia tanto nesta história que só mesmo estando lá é que se pode realmente conhecê-la. Enquanto tu a escutas, talvez fiques com uma ideia que será a tua. Todos temos uma história para te ler afinal. E isso é pertença.

Sabes, as histórias às vezes têm bruxas e esta também. A bruxa do medo. Medo de não ser capaz, medo de não saber valorizar, medo do desconhecido futuro. Só que depois... vem a tal Fada, linda, mágica e acaba com a Bruxa escondendo-a onde não a vemos, apenas sabemos que está lá. E pronto, "vitória vitória acabou-se a história!" (L)

Há histórias que são assim, esquisitas de saudades. Agora só falta o cão e o menino. Continuas tu?

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Não sou nada mulher



Saber conscientemente que não se pertence ao padrão esperado. Tudo tão actual, não é?


"Eu não sou em muitas coisas, nada mulher; pouco de feminino tenho em quase todas as distracções da minha vida. Todas as ninharias pueris em que as mulheres se comprazem, toda a fina gentileza duns trabalhos em seda e oiro, as rendas, os bordados, a pintura, tudo isso que eu admiro e adoro em todas as mãos de mulher, não se dão bem nas minhas, apenas talhadas para folhear livros que são verdadeiramente os meus mais queridos amigos e os meus inseparáveis companheiros. Zango-me comigo própria, tento fazer qualquer coisa, mas a leveza aérea das sedas, a fluidez ideal das rendas, fazem tremer-me as mãos que não tremem nunca ao folhear os livros que mais fatigam toda a gente, irritam-me e maçam-me a um ponto que tenho de atirar com aquilo tudo para outro regaço mais de mulher, mais cariciante, mais doce e com todas as carícias e doçuras que o meu não teve, não tem e não terá nunca. Que desconsolo ser assim, minha Júlia! Ter apenas paciência para penetrar os arcanos duma alma que se fecha nas páginas dum livro; ter apenas gosto em chorar com António Nobre, pensar com Vítor Hugo, troçar com Fialho de Almeida e rir suavemente, deliciosamente, com uma pontinha de ironia onde às vezes há lágrimas, com Júlio Dantas! Eu não devia ser assim, não é verdade? Mas sou... Tive os melhores professores de tudo na capital do Alentejo (que se são melhores não são bons), de bordados, de pintura, de música, de canto, e afinal sou uma eterna curiosa de livros e alfarrábios, e mais nada. E pensando bem, minha querida, não há tudo isso nos meus livros? Música e canto, bordados e rendas... que delícia e que finura em certos versos... que encanto e que magia em certas frases!... Palpo esses bordados, essa macieza de cetins, beijo esses pontos delicados, essa espuma de rendas, essas brancuras ténues, esses negros chorosos e trágicos, e acho-os melhores, convenço-me que valem mais que os mais valiosos trabalhos em que mãos de princesas descansassem. E muitas vezes surpreendo-me a sorrir com um pouco de ironia e de piedade por todas essas belas coisas, coisas de mulheres tão finas e tão leves como a leviandade... "

Florbela Espanca, in "Correspondência (1916)"